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Durante esta semana tive o meu momento mais Big Brother aqui na Irlanda. Na terça-feira era dia de falar até logo para o Kiko. Depois de um ano na terra do nunca (ainda vou escrever um texto sobre isso) ele estava voltando para o Brasil, iniciar um projeto de trabalho bem legal e isso significava que ele estava saindo do jogo e indo de volta ao mundo real.

Saímos bem cedo em um típico dia em Dublin. Um frio acompanhado por uma insistente desagradável chuva fina, claro que com seu inseparável amigo vento.

Chegamos no aeroporto e, claro, que até no último momento Orestes tinha que nos proporcionar momentos divertidos, apesar de tensos. A confusão foi com o peso das malas que ele levava de volta.

Quando compramos a passagem temos o direito de embarcar com dois volumes de 32 Kg, mas a empresa resolveu mudar as regras e não queriam deixar ele embarcar com as malas, a não ser se pagasse 150 euros pelo peso extra.

Enquanto ele telefonava para a empresa aérea, Raissa e eu colocamos as malas dele em um canto e começamos a tirar o que achávamos que não era necessário levar para o Brasil. Sim, no meio do aeroporto, com todos olhando.

O resultado foi que algumas camisetas, a ceroula dele e um tênis ficaram. Além de algumas outras coisas que ficamos de enviar pelo correio. Tudo decidido e era hora de fazer o check-in e dizer tchau.

Não imaginava que me despedir de uma pessoa com a qual eu havia convivido menos de dois meses seria tão triste. Depois de um abraço, um pouco de lágrimas, ver ele entrando no portão de embarque me lembrou muito os “Brothers” quando um deles é eliminado.

Ainda meio anestesiados fomos comer alguma coisa pelo aeroporto mesmo e voltar para o centro da cidade. Afinal, para quem ficava, o jogo continua. Mas ainda é estranho chegar em casa e não ver ele no seu “cantinho Orestes” cercado pelas suas cervejas e seus aparatos tecnológicos.

A mudança para a querida “periferia” de Smithfield me obrigou a mudar alguns hábitos, como o de sair de casa sempre atrasado para o trabalho. Agora tenho que andar meia hora, em passos largos, para chegar ao restaurante. Mas, em compensação, estou há 15 minutos de caminhada da escola. No frigir dos ovos, as coisas estão entrando no eixo novamente. Pelo menos por enquanto…

Cheguei em casa ávido por um banho. Me deparo com o Kiko na porta com cara de velório. Achei que ia me zoar pelas besteiras da festa e por eu ter apostado que a “quebra-barraco” seria uma boa flatmate. Mas quando eu chego na porta o Kiko me lança um sonoro “Fudeu!”.

A fisionomia dele era estranha, o corredor de entrada estava cheio de sacolas e coisas empilhadas. Enquanto eu entrava, ele me disse que a dona da casa apareceu no meio da tarde para faze uma “inspeção surpresa”. Claro que ela não gostou do que viu e nos colocou pra fora.

Por alguns instantes eu pensei ser uma piada, claro. Até que um dos nossos amigos chega pra mim e fala: “Diego, eu peguei a sua mala e coloquei tudo que estava na sua parte do armário da melhor forma possível”.

Eu não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo. Precisei sentar, respirar e tentar conter a crise de riso que estava prestes a começar. Não teve jeito. Comecei a rir e a olhar para aquele cenário.

Além dos moradores, vários amigos tinham ido para a nossa casa nos ajudar com a mudança. Estava tudo fora dos armários, algumas coisas em sacos de lixo. Uma cena muito maluca. O jeito era parar de rir e checar se todas as minhas coisas estavam na mala. Tudo arrumado, quer dizer, colocado dentro dos limites do zíper da mala.

Descobri que iríamos nos alojar na casa de uns amigos. Tudo dentro do Táxi Van e lá íamos nós, ainda sem acreditar no que estava acontecendo, rumo a Smithfield. Não tem nem como agradecer os meninos que nos deram abrigo. Em um apartamento bem pequeno alojaram quatro pessoas na sala.

Viemos só em três para a casa dos nossos amigos pois o Kiko, que iria embora na terça-feira, preferiu ficar na casa de um amigo do trabalho. Mas não estava certo, ele deveria ficar conosco. Desalojados, masi ainda unidos. Depois de alguns telefonemas o convencemos a vir se juntar aos sem-teto.

Apesar de tudo isso, não conseguíamos dormir e passamos a madrugada dando risada do Kiko imitando a dona da casa ao ver o apartamento. Segundo ele, ela tinha o cabelo e a voz rouca da Nair Belo e a filha ficava rodopiando com um vestido a la Noviça Rebelde. Não tem como descrever.

Mas no meio dessa conversa toda, lembramos que os nossos amigos estavam deixando esse apartamento para morar em um bem legal que, por ter vista para o mar, foi apelidado de Copacabana.

Em uma rápida reunião, decidimos que no dia seguinte falaríamos com a corretora para ficarmos ali mesmo. Além de termos gostados do apartamento, que apesar de pequeno tem seu charme (mesmo que ainda nao tenhamos descoberto qual), só de pensar em procurar apartamento e fazer uma mudança de novo, já dava preguiça.

Até que o saldo não havia sido tão negativo. Tínhamos sido despejados, é verdade, mas já achamos um novo apartamento. Sim, podem contar. Em menos de tres meses era a minha quarta mudança.

No início da festa, uma coisa muita engraçada me aconteceu. Como ainda estávamos em poucas pessoas, o som estava baixo, e conseguimos conversar. Os primeiros a chegar foram um casal de jornalistas amigos do Kiko. Conversa vai, conversa vem, descobrimos que temos uma amiga em comum. A Bixcoito.

Mas eu não me dei por satisfeito, pois a garota me parecia muito familiar. Mais algum tempo de papo e descobrimos que nos formamos na mesma faculdade, mas ela terminou um ano antes. Matei a charada. Ela é amiga de uma garota que me dava carona pra faculdade no primeiro ano. Quando falei que eu era aquele estagiário que ia com elas foi uma festa, não acreditávamos que depois de oito anos íamos nos encontrar em uma festa na Irlanda. Esse mundo é muito pequeno mesmo.

A festa ia tomando cada vez um rumo melhor. As músicas estavam sendo muito bem escolhidas pelo Kiko e o pessoal estava muito animado. A não ser a nossa nova flatmate, que me chama de canto e pergunta se seria muito chato ela lavar uma calça, pois precisava trabalhar no dia seguinte. Achei meio estranho, mas ela estava se mudando e tinha todo o direito. Depois de tirar algumas pessoas da frente da maquina, que fica na cozinha, ela conseguiu colocar sua roupa pra lavar.

A todo momento ela me pedia desculpas por não estar empolgada, mas estava com um problema de família no Brasil. Mesmo assim dizia que não estava se importando com a festa e que era até bom para ela se distrair.

Mas quando a festa está no auge, lá pelas 3h da manha, ela avisa que não quer mais morar conosco, que a festa está demais para ela. Disse não ser nada pessoal, mas ela preferiria ir embora. Negócio fechado. Àquela altura do campeonato o povo queria mais era curtir a festa.

Mas ela não ia embora. Ficou mais um bom tempo na festa, até que quando decidiu ir embora uma amiga nossa irlandesa deu um tchau meio irônico. E ai que começamos a conhecer quem quase foi nossa flatmate.

Do alto dos seus 1,50m ela pulou nos cabelos da Maryon e a mordeu, no corredor do prédio. Gritava feito uma louca e pediu o dinheiro de volta. Quando viu a confusão, o Dj abaixou o som e foi ver o que estava acontecendo. Mas claro que tinha que ter um bêbado, sem noção da vida, que foi lá e aumentou a musica novamente.

Foi o suficiente para nossa quase nova flatmate, que recebeu o carinhoso apelido de “quebra-barraco”, ir ate o computador e fechá-lo, com todo o seu jeitinho carinhoso. Ai provocou a ira da dona do laptop, que foi tirar satisfação.

Mais uma vez quebra-barraco deu seu golpe contra os cabelos alheios e foi posta para fora de casa, não sem antes fazer com que os vizinho chamassem a Guarda, que foi ver o que estava acontecendo.

A maluca já não morava mais conosco. A Guarda já tinha ido embora. Era hora de recomeçar a festa e dar risada das ciladas que nos metemos. Fui dormir por volta das 9h30 da manha e às 12h estava trabalhando.

Sai de casa para trabalhar desviando do bêbados que tinham se alojado por lá mesmo. Comprei um Red Bull Cola e fui trabalhar daquele jeito, mas feliz, pois a festa tinha sido muito boa.

A minha sorte e que quando trabalho de domingo, normalmente me colocam no coffe shop, uma verdadeira colônia chinesa em Dublin. Eles falando a língua deles eu nem precisava interagir e ser simpático. Só estava contando os minutos para as 18h, quando poderia ir pra casa, tomar um bom banho e tirar o sono atrasado. Mal sabia eu o que acontecera durante essa famigerada tarde de domingo…

As semanas foram passando e acabei me acostumando com o caos harmônico da minha nova casa. Eis que chega a hora de procurar uma pessoa para ocupar o lugar do nosso querido Kiko Costato, também conhecido como Orestes (aquele personagem bêbado que o Paulo José interpretou em uma novela do Manoel Carlos), que estava indo embora para o Brasil.

Colocamos o anúncio naquele mesmo site que eu já comentei e as pessoas começaram a ligar. Marcamos algumas visitas. Uma mais engraçada que a outra.

Colocamos o anúncio em português, pois queríamos brasileiros. Pessoas de todos os lugares, estilos, jeitos e esquisitices aparecem nesses momentos. Desde a santinha que ficava aterrorizada quando falávamos das festas, de cerveja etc., até os pseudos-descolados, que também irritam da mesma forma.

Eis que surge uma carioca que foi conhecer o apartamento e engatamos em um bom papo. A menina não parava de falar, mas eu achei normal, afinal ela sabia que estava sendo “analisada” e era o momento de ver se tínhamos coisas em comum.

Como os outros moradores devem ir embora em agosto eles deixaram por minha conta a escolha, já que eu continuaria morando com a pessoa por mais tempo.

Achei que essa carioca era a pessoa certa, já com experiência de cinco anos na Europa, não era uma iniciante na arte de dividir apartamento. Tudo combinado e na sexta-feira ela se mudou.

Sabendo do que tinha passado me mudando para uma casa onde as pessoas já tinham uma história, aceitei sair para um Pub com ela e um amigo italiano, na intenção de fazer a social, conhecer mais a nova moradora. Foi uma noite bem divertida.

Deixamos bem claro que no sábado teria uma festa forte em casa, pois era a despedida do Orestes e a festa seria cheia e barulhenta. Ela disse não haver problema e, quando chegou do trabalho no sábado, estava tranqüila e comentando da festa. Até convidou aquele amigo italiano.

Sábado a noite. A festa começa. Neste dia eu estava no clima de festa e, mesmo sabendo que trabalharia no domingo, decidi aproveitar a última festa com Orestes aqui em Dublin. Começa a noite, Kiko discotecando e o apartamento enchendo cada vez mais.

A noite prometia. Mal sabíamos que prometia tanto…..

Trabalho ou laboratório?

No trabalho as coisas estavam bem. Trabalhar de Floor Staff tem sua graça. No meu segundo dia, um grupo de simpáticas senhoras irlandesas me fez um verdadeiro interrogatório sobre o Brasil, sobre o que eu estava fazendo aqui, sobre o que eu fazia no meu país e acabaram por falar que eu tinha uma pele de cor saudável. Na hora pensei em comentar que tínhamos um clima melhor, mas achei desnecessário.

Depois de toda essa conversa e de servir alguns cafés, elas me deram 10 euros de gorjeta. Achei ótimo, mas quando comentei com os outros staff, eles me falaram que isso nunca tinha acontecido por lá e que não era para eu me acostumar. Tinham razão, hoje quando rola dois euros comemoramos.

O meu trabalho é basicamente recolher as bandejas, pratos, talheres e copos das mesas. Trabalho em um restaurante self-service, mas não é por quilo como no Brasil. Para quem está acostumado a trabalhar pensando é um choque e tanto perceber que você se tornou apenas um executor.

Para não surtar decidi que tudo que eu vivo lá no restaurante e um laboratório de teatro. Passo os dias analisando as pessoas, seus comportamentos etc. Adoro bater papo com os clientes idosos, que além de ter mais paciência com meus erros de inglês, são curiosos pois a cidade deles esta sendo invadida por todas as culturas ao mesmo tempo.

Quem me conhece sabe que não sou um primor no que diz respeito à coordenação motora e sutileza em fazer as coisas. Apesar disso, acho que tenho me dado bem com as bandejas, não derrubei nada em ninguém. É claro que, às vezes, os talheres imitam a Daiane dos Santos e, em um incrível Carpado Duplo, saltam das bandejas em direção ao colo de algum cliente, mas nada que com um bom “So Sorry”, seguido de um belo sorriso, não se resolva.

Hoje, depois de dois meses, sinto que eles gostam do meu trabalho. Pedi para não ter folga, para trabalhar mais horas e fui atendido, o que não deixa de ser um bom sinal.

Big Brother Ireland

Cheguei no final do Big Brother dessa casa. Diferente da outra, onde os conflitos estavam apenas começando, nesta nova casa os conflitos já tinham sido vividos, muito intensamente, e agora as cicatrizes e aprendizados começavam a ser colocados em prática.

Depois de um dia de trabalho, chego em casa para a minha primeira noite. Um dos moradores veio me explicar em que ponto estava o “Big Brother” e o que aconteceria pelas próximas duas semanas, já que um amigo muito próximo estava indo embora, e nem todos estavam lidando muito bem com essa situação.

Dito e feito. Na minha primeira noite na casa teve uma festa. Tudo bem, eles haviam me perguntado se eu gostava de festas, mas eu não entendia como uma casa silenciosa poderia comportar umas 10 pessoas completamente chapadas de uma hora para outra.

Tudo bem. Não sou tão ingênuo. Saber eu sabia, mas não imaginava que isso ia acontecer na minha primeira noite. Para piorar um pouco a minha situação, uma antiga moradora da casa chega me avisando que aquilo acontecia todos os dias e, por esse motivo, ela tinha saído da casa e que se eu tivesse que trabalhar no dia seguinte teria que dormir com aquela balada.

Eu curti a festa um pouco, mas me senti um pouco excluído. Não conhecia as pessoas e não estava no clima de uma festa tão forte. Até que consegui dormir bem. Pelas próximas duas semanas isso se repetiu, em alguns momentos passando dos limites, em outros extrapolando todo o bom senso.

Mas eu esperava que isso terminasse logo. Comecei a ficar com medo de chegar em casa, pois não sabia o que eu encontraria. Tanto poderia me deparar com meus flatmates conversando no sofá, como dar de cara com 10 pessoas loucas dançando em cima da mesa de centro.

Contava tudo isso para os meus amigos do trabalho, pois tinha que desabafar com alguém. Eles me incentivavam a mudar de casa, procurar um lugar mais tranqüilo. Eu me convencia, mas chegava em casa e não me via mais morando com outras pessoas. Mesmo com aquele caos.

Sem-teto por um tempo

Voltando à minha mudança, a sorte é que eu ainda não tenho muita coisa. Apenas uma mala e minha inseparável mochila dão conta do recado, mas toda ajuda é bem vinda. Cheguei no apartamento crente que teria uma recepcão legal, já que todos me pareceram tão legais no dia anterior. Entro no condomínio e me deparo com dois dos meus futuros “flatmates” com cara de velório. Ainda tentei ser simpático, mas um deles me vira com a pergunta que quase me derrubou: O que voce está fazendo aqui?

Lembram daquela ligação que eu não dei importância, achando que era do apartamento baratinho? Não era. Eram eles que me ligaram para falar que eu não poderia mais me mudar, pois eles tinham tido uma seria discussão com os outros moradores da casa, que quase acabou nas vias de fato, e que eles tinham escolhido outro morador.

Eu queria ter fotografado a minha própria cara. Eu estava litralmente de mala e cuia e não tinha mais um apartamento. Na hora, para variar, me deu uma crise de riso, que eu não podia controlar. Saímos, eu e meus amigos gaúchos, em busca de uma lan-house baratinha para que eu pudesse tentar achar algum apartamento no mesmo dia. Sabia que era quase impossível, mas quis tentar. Pensei em todas as possibilidades e percebi que a melhor coisa a se fazer seria ligar para meus outros amigos gaúchos e pedir abrigo por alguns dias, até que eu me encontrasse.

Claro que eles me ajudaram e me abrigaram na casa deles. Foram momentos muito bons. Dormi quatro noites no chão da sala, pois era a melhor coisa para minhas queridas hérnias de disco, que estavam atacadas, não reclamarem.

Nesses quatro dias eu percebi o quanto vivemos em um Big Brother nesse tipo de vida. Por estarmos todos no mesmo barco, com as mesmas metas e com as mesmas dificuldades, acabamos nos apegando às pessoas com uma facilidade muito grande. Presenciei cenas típicas de crises de convivência que só via no Big Brother. Foi muito interessante, ainda mais pelo que estava por vir.

Pelo menos, a parte mais problemática da coisa, que era arrumar o emprego, já esta encaminhada. No meio da semana fui visitar um apartamento de um povo que eu gostei e, pelo visto, gostaram de mim também. Raíssa era o nome da intermediadora.

A visita foi como sempre. Perguntas, umas piadas pelo fato de eu ser novo na cidade, as coisas de sempre. Não sei porque, mas gostei do ambiente e do pessoal, mas antes de ser aceito eu deveria passar por outra entrevista onde estariam todos os moradores da casa.

Depois de um dia de trabalho a tal da Raissa me liga para eu ir tomar uma cerveja com eles, já que estavam todos em casa. Tinha saído pra tomar uma com o pessoal do trabalho, mas depois fui para o meu possível, quem sabe, futuro, novo apartamento. Cheguei lá e encontrei quatro brasileiros diferentes vivendo em uma harmonia meio caótica. Apesar de me assustar um pouco no início, confesso que gostava de ver como algumas coisas funcionavam.

Dessa vez o papo foi ainda mais descontraído, falamos de música, de jornalismo, de teatro de cinema e sentia que havia, enfim, encontrado pessoas legais para morar. Me mudei na sexta-feira de manhã, antes de ir pro trabalho.

Pronto, pensei, empregado e com um teto. Minha vida em Dublin agora vai tomar um rumo, criar uma rotina e sossegar.

Mais ou menos…

Empregado, mas…

Minha primeira missão, no meu primeiro dia útil na Irlanda, era ir ao prédio da escola para pegar a papelada que a imigração exige, já que quando entramos recebemos o visto de turista por um mês. La fomos nós, o casal e eu, acompanhados de nossa guia. Desta vez já estava sabendo pelo menos por onde eu estava indo, me deu um certo alívio.

Um prédio de escritórios simples, uma sala bem modesta por sinal. Eu sabia que a escola era simples, mas nem tanto. Papéis arranjados, e a semana se resumiu a abrir conta no banco, pedir o meu PPS number, que seria o nosso CPF, e um teste na escola para saber em que nível eu entraria. Aula mesmo, só na próxima semana.

Comprei uma máquina fotográfica. A semana se passou assim, entre uma repartição pública e uma
agência bancária, uma pausa para fotos e para reconhecer o território. Descobri que se eu pedisse
reembolso da homestay que eu ja tinha pago no Brasil, até o final da primeira semana, poderia ficar
mais uma semana e ainda receberia 200 euros de reembolso. Estava criada a missão para a próxima semana.
Achar um apartamento ate sexta-feira.

Como todo bom brasileiro que chega aqui, me meti na lan-house da china mal educada, que só cobra 1 euro por hora, e comecei minha odisséia de busca no site em que as vagas são anunciadas. A tática é ler o anúncio e já ligar marcando uma visita.

Aqui, passamos por uma certa entrevista de seleção para ocupar uma vaga em um apartamento. Claro que também acabamos fazendo a nossa seleção. Eu conheci lugares que eu nao moraria nunca. Um deles era muito barato, muito bem localizado e muito sujo. Quando eu entrei, o brasileiro que estava selecionando
deixou bem claro que ele “nem tinha arrumado o apartamento pois nao queria mentir”. Sem condições.

No meio da semana uma situação bem engraçada me fez ver que em um país achamos todos os tipos de pessoas. Estava deitado no meu quarto e ouvi tocar a campainha. A Lari foi abrir mas, ainda insegura com seu inglês, chamou o Marcelo, que também não conseguiu entender e acabou me chamando. Uma senhora, que morava na mesma rua, tinha visto dois rapazes no mercado do bairro com malas e foi perguntar se eles estavam com algum problema. Eles se disseram perdidos e mostraram a carta da escola, com o nosso endereço. Ela teve o trabalho de ir bater em casa, me esperou trocar de roupa e me levou até eles. Esses dois gaúchos tiveram muita sorte de encontrar um Irish assim.

Eis que aos 48 minutos do segundo tempo eu acho um apartamento do lado da escola, perto do centro, com um preço razoável. Fechei na hora. No sábado à noite preparei minhas malas, deixei apenas a roupa para o dia seguinte de fora e fui dormir me preparando para a mudança. Recebi uma ligação, que me pareceu ser do cara do apartamento baratinho e, como o sinal não estava bom, desliguei.

Os dois gaúchos se dispuseram a me ajudar na mudança, para eu também lhes mostrar o centro da cidade. Foi interessante, pois eu já estava andando pelas ruas e apontando lugares, como há uma semana haviam feito comigo. Me lembrei do casal de turistas que conhecemos na virada do ano em Prumirim. Foram parar lá por sorte e eu os ajudei com o inglês. Depois de alguns dias, quando fomos embora, eles me agradeceram e disseram que eu acharia pessoas para me ajudar na minha viagem.

Na minha segunda semana a Bixcoito me avisa, e me indica, para uma vaga que estava abrindo no restaurante que ela trabalhava. Eu nem tinha inventado todo meu currículo ainda. Completei com alguns dos “empregos” na área de garçom e atendente de café que eu tive no Brasil e corri pra lá. A gerente me fez um rápida entrevista e já me disse que eu estava empregado. Mas, claro, tinha que ter um problema. O horario de trabalho era exatamente o mesmo das minhas aulas.

Na hora, sem tempo para pensar, falei que tinha a possibilidade de trocar de horário na escola, mesmo tendo ouvido da diretora que nossa prioridade deveria ser a escola e os empregos deveriam ser nos horários alternados.

Mas não tinha escolha. Sabia de pessoas que estavam aqui há dois meses e sem emprego. Decidi ir até a escola e ver o que era possível ser feito. Além disso, o “teste” que eles me aplicaram me colocou no nivel elementar, e as aulas estavam meio sem sentido.

A minha única escolha era falar com um homem que tinha sido nos apresentado como coordenador da escola e que, como a diretora estava viajando pelo Brasil, seria o responsável pela escola. Expliquei que tinha encontrado um emprego e que sabia que muitos estavam há tempo procurando e que sabia que tinha que estudar. Abri meu coração. O cidadão falou, em princípio, que não tinha o que fazer e que deveria ser uma escolha minha faltar na escola por duas semanas, até que eles pudessem me realocar para uma turma noturna.

Na hora em que eu já estava pensando que estava bom demais para ser verdade, o nosso professor me chamou de canto e falou que eu não poderia perder aquele emprego, que ele estava cansado de perder alunos que iam embora por causa de emprego e que tinha uma idéia para me ajudar, mas eu deveria manter segredo. Ele me perguntou se eu tinha seguro médico e me indicou procurar um médico, reclamar de algum problema de saúde e pedir um atestado de duas semanas para a escola. Primeiro contato com o jeitinho irlandês de ser, bem parecido com o brasileiro.

Saindo de lá fui falar com a gerente do restaurante e avisei que poderia começar a trabalhar quando ela precisasse. Me escalou para a próxima segunda. Acho que isso aconteceu na quarta ou quinta-feira da segunda semana. Agora o objetivo era ir para casa e acionar o plano de saúde caro que comprei no Brasil.

Peguei o telefone e não consegui falar com a central do plano de saúde que fica em Madrid. No mesmo dia
mandei um e-mail para a agência que me vendeu o pacote de intercâmbio. Mas a resposta só veio 10 dias depois, quando tudo ja estava resolvido. Para minha sorte, no dia seguinte quando cheguei na escola, o tal do coordenador veio conversar comigo. Disse que tinha levado meu caso para alguém superior a ele e que eu não deveria me preocupar com as minhas duas semanas de aula.

Dois dias depois eu acho um apartamento. Perfeito. Vou comecar a próxima semana empregado e de casa noval. Nada mal para a terceira semana de um brasileiro em Dublin. Mas…

Eis que a viagem começa

Faltam exatamente 14 dias para eu completar trÊs meses de vida em Dublin. Quando cheguei, a cidade me pareceu diferente, pois, além da arquitetura, o frio não me deixava esquecer que estava em outro país. Cheguei na sexta-feira santa, feriado. Chegando na homestay (depois daquela odisséia com dois Bangla que já contei) me deparo com uma casa repleta de brasileiros. Uma verdadeira colônia gaúcha com uma paulistana perdida aqui, um outro acolá.

Confesso que já cheguei na casa com raiva, pois ela ficava longe do centro e teria que pegar ônibus para ir para a escola e para resolver toda a papelada burocrática para se legalizar no país. Fui alojado no ultimo andar da casa, em um quarto bem pequeno, que não conseguia ficar em pe nos cantos, mas bem aconchegante. Levar a mala lá para cima, passando por uma maldita escada caracol, não foi também das melhores experiências que eu pensava em ter na Europa.

Bom, com a mala apoiada e a cama arrumada era chegada a hora de descer e me integrar com os outros moradores, que pareciam já ter uma longa amizade vinda do Brasil. E lá vou eu, em direção a cozinha para ver qual eram as regras e outras coisas, ainda no clima da república da irmã Leila. Todos foram bem receptivos, claro, afinal estamos todos aqui no mesmo barco. Mas é claro que às vezes surgiam histórias do passado em que eu me sentia excluído, mas soube levar, pois na casa também tinha outras pessoas.

Minha companhia foi um casal. Jovens e recém-casados, que após o casamento vieram ter sua primeira casa na Europa para aprender um idioma e conhecer coisas novas. Pela descrição já da pra entender a minha automática empatia. Não. Eles não são normais. E lá fomos nós, guiados por uma paulistaninha, ao supermercado que havia no bairro. Primeiro choque cultural que eu senti. O que comprar?

Por alguns minutos eu fiquei andando pelo mercado sem saber o que pegar, às vezes algumas marcas soavam familiares aos meus olhos, mas o produto não. As coisas se misturavam na minha cabeça. Além de não ter pensado em algo fácil de ser cozinhado em uma casa dividida com 10 pessoas, eu ainda estava convertendo todos em centavos de Euro para Real. Respirei e fui na clássica sessão de congelados. Olha daqui, procura ali, tenta achar acolá e, decidi que a primeira compra, depois de quase 24h sem tomar um banho, e um vôo de 14 horas, deveria ser a boa e velha pizza.

Hora de voltar pra casa, tirar alguns casacos e uma calça, tomar um banho e… Tomar banho! O sistema de aquecimento interno da casa estava instável, pois o nosso querido amigo Muna, o Bangladesh que tomava conta da casa, às vezes decidia que não precisava ligar. Era todo mundo andando pela casa com casacos e meias e tudo mais. Mas, sem explicações, ele ligava no Máximo e parecíamos estar no Brasil, todo mundo dentro de casa de bermuda e regata.

Ate então eu não sabia disso, mas já tinha percebido que o banheiro estava gelado. Comecei a pensar em como seria tirar a roupa naquele frio. Tinha que achar uma maneira até a hora do banho. Enquanto preparava minhas coisas lembrei da minha amiga Fernanda Luvizotto, que morou na gélida Ponta Grossa, durante a universidade. Não pensei duas vezes. Liguei o chuveiro no aquecimento máximo, peguei uma revista e fiquei sentado no vaso folheando ate que sentisse o ambiente mais propício.

Depois de quase perder a pele tentando diminuir a temperatura daquela maldita água, comecei o meu tão esperado banho. Tudo muito bem, tudo muito bom, mas era hora de fazer comida. Eu estava cansado, pois não dormi durante o vôo, mas não sentia sono. Rápidas instruções de como ligar o forno, elétrico, claro. Pizza no forno e hora para dar uma volta pela casa, ver quais eram os assuntos. Dois amigos estavam conversando na sala, um estava dando noções de inglês para o outro, que tinha uma entrevista de emprego no dia seguinte. Sentei e começamos a conversar, acho que atrapalhei um pouco a aula.

Pizza pronta e mais um susto ao ver que a quantidade de queijo que eles colocam na pizza: é ridícula perto da nossa. Perfeito. Alimentado, de banho tomado, já conversando com o pessoal era hora de dormir e pensar no dia seguinte. Sábado-de-aleluia, feriado.

Precisava comprar um celular e queria conhecer a O’ Connell Street, a chamada Avenida Paulista de Dublin. Combinamos de sair de casa cedo, para ajudar uns moradores que estavam indo para um novo apartamento no centro, e depois sairíamos às compras. Depois de 25 minutos no ônibus, tentando registrar toda aquela nova paisagem, chegamos ao centro. Juro que procurei a Avenida Paulista, com seus prédios gigantes, ainda com o visual antes do “Cidade Limpa”, mas não achei. A O’ Connell e uma pequena avenida, com prédios de no máximo sete ou oito andares com uma agulhe de 120 metros no meio, o Spire. É a avenida onde tem todos os comércios e que é ponto de referência para o centro da cidade, mas não deixa de ter seu charme e suas peculiaridades.

Chegando em casa, não me aguentei, aproveitei a tarifa barata da “santa” Vodafone. Liguei para o Brasil para contar tudo que tinha acontecido. O mais engraçado é que parece que meus pais, e alguns amigos, estavam vivendo tudo isso comigo, tamanha a empolgação que demonstravam. Domingo de páscoa, mais uma caminhada pelo centro, não tive coragem de gastar 10 euros em um ovo de páscoa Ferrero e comprei uma barra de chocolate amargo do Tesco, por 80 cents, que atendeu todas as expectativas.

Pensava que no dia seguinte começaria minha vida em Dublin, mas ainda não era desta vez. Segunda-feira era Bank Holliday, um tipo de feriado que tem, mais ou menos, uma vez por mês e que eu ainda não entendi direito. Então mais um dia de caminhadas pelo centro da cidade. Desta vez já encontrei, por acaso, um amigo do Brasil, e marcamos um dia de eu lhe entregar uma encomenda do Brasil. Em seguida ligo pra minha amiga Bixcoito, que esta na Irlanda há mais tempo. Tínhamos que nos encontrar, depois de tanto tempo, e tomar uma Guinnes, afinal estou na Irlanda.

Este foi o meu primeiro final de semana. Ele está bem detalhado, pois eu estava anotando algumas coisas e, como foram as primeiras impressões, estão mais aguçadas na minha memória. A partir daqui o relato vai partir para fatos aleatórios. Prometo que tentarei manter as coisas em ordem cronológica, mas não sei será possível.

Uma semana em Dublin…..

Eu sei que havia prometido que escreveria sempre, que manteria meu blog atualizado, mas é complicado arrumar tempo para sentar e escrever tudo, e também é caro usar a lan house. Vou resumir um pouco do que aconteceu nesta semana, mas estou anotando tudo para depois, com calma escrever com detalhes minhas aventuras na terra dos Irish.

A recepção em Dublin não foi das melhores, pois estão vindo muitos brasileiros para cá e a imigração está de olho em quem vem para ficar ilegal. Então, assim que cheguei no aeroporto de Dublin o “simpático” senhor que me atendeu me pediu para sentar e esperar. Depois de meia hora de chá de cadeira eles começaram a chamar os brasileiros e deixaram todos passar. Pronto, pensei eu, a pior parte já passou. Não foi bem assim. Fui para a área de desembarque e não achava a maldita esteira onde estava minha bagagem. Claro que ela estava na última que eu fui procurar. Enfim tudo tinha dado certo. Mais ou menos.

Deveria ter uma pessoa segurando uma placa com meu nome no desembarque. Claro que essa pessoa não estava lá. Não me desesperei  pois tinha um telefone de emergência de uma brasileira que trabalha na escola, eu liguei para ela e atende um homem com um inglês muito difícil de entender (depois fui descobrir que era um indiano que trabalha na escola, imaginem o sotaque do cicadão). Depois de algumas ligações, e vários pedidos para que ele falasse mais devagar, consegui achar a pessoa que viria me buscar.

Eis que surge um cara estranho que depois fui saber que era Bangladesh (imaginem este outro sotaque!). Agora sim estávamos arranjados e no caminho para a homestay.  Estávamos em algumas pessoas e fomos divididos em dois carros. Porém, do nada, sem nenhum motivo aparente, pelo menos pra mim, um dos motoristas dá um sinal de luz para o outro e os dois param em um recuo na rodovia.

 - Fodeu. Vão roubar nossos órgãos e nos deixar jogados aqui no meio do nada! – foi o que eu pensei.

Mas para nossa sorte eles só estavam perdidos. Chegamos na nossa homestay e nos deparamos com um colônia gaúcha. “Bah!” “Capaz!” “Tri!” são as palavras mais ouvidas na nossa casa. Ah, sem esquecer que o cara que cuida da nossa casa também é de bangladesh.

Chaguei no meio do feriado, então de sábado até segunda fiquei sem fazer nada, apenas conhecendo o centro e aprendendo os caminhos necessários para a sobrevivência aqui. Claro que isso incluiu um pub para tomar a primeira Guinnes em terra Irish, e tinha que ser na companhia da minha amiga Bixcoito, que já é quase uma Dubliner, pois consegue andar de saia nesse frio congelante.

Conheci alguns dos principais pontos turísticos da cidade e resolvi todos os detalhes de documentação para ajeitar minha situação aqui. Agora estou procurando um emprego e uma nova casa pra morar, pois vou sair da homestay no dia 5 de abril, para pegar 200 euros de reembolso da escola. Enfim, isso é um resumo da minha primeira semana de vida Dublin. Claro que tem muitos mais detalhes, alguns micos e… enfim, está tudo anotado para eu escrever diversos textos. Acho que durante o final de semana eu vou escrever alguns outros e postar.

Até mais….

PS – AS FOTOS EU VOU COLOCAR NO ORKUT, AQUI DEMORA MUITO, AINDA NÃO PEGUEI O JEITO!!

   

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