Faltam exatamente 14 dias para eu completar trÊs meses de vida em Dublin. Quando cheguei, a cidade me pareceu diferente, pois, além da arquitetura, o frio não me deixava esquecer que estava em outro país. Cheguei na sexta-feira santa, feriado. Chegando na homestay (depois daquela odisséia com dois Bangla que já contei) me deparo com uma casa repleta de brasileiros. Uma verdadeira colônia gaúcha com uma paulistana perdida aqui, um outro acolá.
Confesso que já cheguei na casa com raiva, pois ela ficava longe do centro e teria que pegar ônibus para ir para a escola e para resolver toda a papelada burocrática para se legalizar no país. Fui alojado no ultimo andar da casa, em um quarto bem pequeno, que não conseguia ficar em pe nos cantos, mas bem aconchegante. Levar a mala lá para cima, passando por uma maldita escada caracol, não foi também das melhores experiências que eu pensava em ter na Europa.
Bom, com a mala apoiada e a cama arrumada era chegada a hora de descer e me integrar com os outros moradores, que pareciam já ter uma longa amizade vinda do Brasil. E lá vou eu, em direção a cozinha para ver qual eram as regras e outras coisas, ainda no clima da república da irmã Leila. Todos foram bem receptivos, claro, afinal estamos todos aqui no mesmo barco. Mas é claro que às vezes surgiam histórias do passado em que eu me sentia excluído, mas soube levar, pois na casa também tinha outras pessoas.
Minha companhia foi um casal. Jovens e recém-casados, que após o casamento vieram ter sua primeira casa na Europa para aprender um idioma e conhecer coisas novas. Pela descrição já da pra entender a minha automática empatia. Não. Eles não são normais. E lá fomos nós, guiados por uma paulistaninha, ao supermercado que havia no bairro. Primeiro choque cultural que eu senti. O que comprar?
Por alguns minutos eu fiquei andando pelo mercado sem saber o que pegar, às vezes algumas marcas soavam familiares aos meus olhos, mas o produto não. As coisas se misturavam na minha cabeça. Além de não ter pensado em algo fácil de ser cozinhado em uma casa dividida com 10 pessoas, eu ainda estava convertendo todos em centavos de Euro para Real. Respirei e fui na clássica sessão de congelados. Olha daqui, procura ali, tenta achar acolá e, decidi que a primeira compra, depois de quase 24h sem tomar um banho, e um vôo de 14 horas, deveria ser a boa e velha pizza.
Hora de voltar pra casa, tirar alguns casacos e uma calça, tomar um banho e… Tomar banho! O sistema de aquecimento interno da casa estava instável, pois o nosso querido amigo Muna, o Bangladesh que tomava conta da casa, às vezes decidia que não precisava ligar. Era todo mundo andando pela casa com casacos e meias e tudo mais. Mas, sem explicações, ele ligava no Máximo e parecíamos estar no Brasil, todo mundo dentro de casa de bermuda e regata.
Ate então eu não sabia disso, mas já tinha percebido que o banheiro estava gelado. Comecei a pensar em como seria tirar a roupa naquele frio. Tinha que achar uma maneira até a hora do banho. Enquanto preparava minhas coisas lembrei da minha amiga Fernanda Luvizotto, que morou na gélida Ponta Grossa, durante a universidade. Não pensei duas vezes. Liguei o chuveiro no aquecimento máximo, peguei uma revista e fiquei sentado no vaso folheando ate que sentisse o ambiente mais propício.
Depois de quase perder a pele tentando diminuir a temperatura daquela maldita água, comecei o meu tão esperado banho. Tudo muito bem, tudo muito bom, mas era hora de fazer comida. Eu estava cansado, pois não dormi durante o vôo, mas não sentia sono. Rápidas instruções de como ligar o forno, elétrico, claro. Pizza no forno e hora para dar uma volta pela casa, ver quais eram os assuntos. Dois amigos estavam conversando na sala, um estava dando noções de inglês para o outro, que tinha uma entrevista de emprego no dia seguinte. Sentei e começamos a conversar, acho que atrapalhei um pouco a aula.
Pizza pronta e mais um susto ao ver que a quantidade de queijo que eles colocam na pizza: é ridícula perto da nossa. Perfeito. Alimentado, de banho tomado, já conversando com o pessoal era hora de dormir e pensar no dia seguinte. Sábado-de-aleluia, feriado.
Precisava comprar um celular e queria conhecer a O’ Connell Street, a chamada Avenida Paulista de Dublin. Combinamos de sair de casa cedo, para ajudar uns moradores que estavam indo para um novo apartamento no centro, e depois sairíamos às compras. Depois de 25 minutos no ônibus, tentando registrar toda aquela nova paisagem, chegamos ao centro. Juro que procurei a Avenida Paulista, com seus prédios gigantes, ainda com o visual antes do “Cidade Limpa”, mas não achei. A O’ Connell e uma pequena avenida, com prédios de no máximo sete ou oito andares com uma agulhe de 120 metros no meio, o Spire. É a avenida onde tem todos os comércios e que é ponto de referência para o centro da cidade, mas não deixa de ter seu charme e suas peculiaridades.
Chegando em casa, não me aguentei, aproveitei a tarifa barata da “santa” Vodafone. Liguei para o Brasil para contar tudo que tinha acontecido. O mais engraçado é que parece que meus pais, e alguns amigos, estavam vivendo tudo isso comigo, tamanha a empolgação que demonstravam. Domingo de páscoa, mais uma caminhada pelo centro, não tive coragem de gastar 10 euros em um ovo de páscoa Ferrero e comprei uma barra de chocolate amargo do Tesco, por 80 cents, que atendeu todas as expectativas.
Pensava que no dia seguinte começaria minha vida em Dublin, mas ainda não era desta vez. Segunda-feira era Bank Holliday, um tipo de feriado que tem, mais ou menos, uma vez por mês e que eu ainda não entendi direito. Então mais um dia de caminhadas pelo centro da cidade. Desta vez já encontrei, por acaso, um amigo do Brasil, e marcamos um dia de eu lhe entregar uma encomenda do Brasil. Em seguida ligo pra minha amiga Bixcoito, que esta na Irlanda há mais tempo. Tínhamos que nos encontrar, depois de tanto tempo, e tomar uma Guinnes, afinal estou na Irlanda.
Este foi o meu primeiro final de semana. Ele está bem detalhado, pois eu estava anotando algumas coisas e, como foram as primeiras impressões, estão mais aguçadas na minha memória. A partir daqui o relato vai partir para fatos aleatórios. Prometo que tentarei manter as coisas em ordem cronológica, mas não sei será possível.